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sábado, 3 de setembro de 2011



O câncer físico e o câncer emocional 

       Certa vez, na Austrália havia uma jovem chamada Karen. Ela era sociável, bem-humorada, divertida, supervalorizava seus longos cabelos loiros e tinha um grande sonho, o de ser médica pediatra, mas era indisciplinada, não estudava para as provas, não lia livros, não tinha garra. Os amigos não davam nenhum crédito a ela quando dizia que ia ser pediatra.
A bela e alegre Karen vivia sua vida sem grandes tempestades, até que passou pelo mais dramático vendaval, pela mais angustiante experiência. Enquanto brincava e corria na praia num final de semana com seus amigos, sentiu tonturas e levou subitamente um tombo na areia.
Os amigos deram risadas pensando que ela tropeçara. Mas não tropeçou. Simplesmente teve vertigem, ficou tonta, perdeu o equilíbrio e caiu sem controle. Sua face se chocou com o solo fortemente e ficou impregnada de grãos de areia. Como demorava a se levantar, os amigos, abalados, a socorreram. Passado o susto, divertiram-se e Karen ainda curtiu a praia naquele dia.
Todavia, posteriormente, começou a ter alguns sintomas que preocuparam seus pais. Feitos alguns exames, diagnosticou-se que Karen infelizmente tinha um tumor cancerígeno. Como contar a ela? O que falar?
— Às vezes, dar certas notícias provoca um terrível nó na garganta, sufoca a emoção. Saber falar uma informação negativa! Irrigando quem está ouvindo com esperança é uma arte e nem sempre se consegue. Karen precisava estar consciente da sua doença, pois tinha de se tratar, fazer cirurgia, mudar sua rotina. Quando os seus pais, junto com seus médicos lhe falaram a respeito da sua doença, o mundo desabou sobre ela. Não parava de chorar. Seu pai, em prantos, a abraçou. Sua mãe também a abraçou e lhe disse:
       — Vamos vencer, juntos, o tumor! Tenha fé em Deus, tenha fé na vida, minha filha. Você é forte! — E a beijava sem parar.
Passado o desespero, ela sentiu-se mais consolada. No dia seguinte, seus pensamentos ficaram inquietos, perturbados, acelerados. Não parava de pensar no câncer. Tinha um namorado que, no começo, lhe deu força. Mas o medo de nunca mais beijar seus pais e de não abraçar seus amigos e namorado asfixiava seu ânimo.
       Karen precisava lutar contra um inimigo que não via e que estava dentro dela. Passou por uma grande cirurgia e teve de mudar alguns dos seus hábitos por causa de um longo tratamento, incluindo radioterapia. Os seus cabelos longos e loiros enfraqueceram as raízes e começaram a cair.
Perdeu o ânimo de se vestir, de se cuidar. O sorriso já não era tão freqüente. Não apenas o medo da sua doença a rondava, mas passou a se sentir feia, diminuída e rejeitada. Faltava-lhe auto-estima, sobrava-lhe desânimo.
       Karen colocava um chapéu na cabeça para disfarçar a queda de cabelo, mas todos sabiam que eles ralearam, afinal de contas eram grandes e vistosos. O namorado a abandonou, só aparecia de vez em quando. A menina extrovertida começou a se isolar e se deprimir. Perdeu o prazer de ir à escola. Colocava as mãos na cabeça e pensava: "Todos zombarão de mim". Construiu, sem perceber, alguns conflitos que a bloqueavam.
Suzan, uma grande amiga, foi visitá-la e percebeu seu indecifrável sofrimento. Com muito respeito, ela comunicou seu conflito aos colegas de classe. Eles ficaram profundamente sensibilizados pela amiga, Mas não sabiam o que fazer para que ela não se sentisse rejeitada, para que ela se animasse.
       — Karen não podia se deprimir, pois uma pessoa deprimida cuida menos da sua qualidade de vida, diminui sua imunidade, enfraquece sua resistência para lutar contra o câncer. Ela havia emagrecido e apresentava vários episódios de vômito.
        Para desespero dos seus pais, parecia que ela não tinha garra de batalhar pela vida. Eles procuraram uma psicóloga para ajudá-la. Certo dia, andava muito abatida nos corredores do hospital em que se tratava. De repente, ouviu os gritos de alguns meninos dentro de uma sala. Como sempre gostou de crianças, resolveu entrar. Ao entrar, levou um choque emocional.
Viu seis crianças brincando com bexigas. O que mais a abalou era que todas estavam com a cabeça brilhante, sem cabelos. Todas estavam em tratamento de câncer.
       — Vem brincar com a gente — elas disseram. Ela se negou. Então, uma menina de seis anos, pegando em suas mãos, a levou para o centro da sala. Karen estava inibida, há meses não brincava. Todos a envolveram.
Ao ver o sorriso das crianças e a vontade de viver espelhada no rosto de cada uma delas, ela finalmente entrou na folia. Pulou, brincou, fez cócegas, parecia que o mundo tinha parado. Ao mesmo tempo que se divertia, começou a se lembrar do sonho de ser pediatra. Parecia que esse sonho estava sepultado, mas ele estava apenas escondido.
       Karen tinha mais que um desejo, tinha um sonho, um projeto de vida. Ao se envolver com aquelas crianças, ela começou a resgatar seu sonho. Começou a freqüentar aquela sala, ter o contato com muitas crianças que, sem perceber, apostavam tudo na vida. Quanto mais a freqüentava mais se sentia fortalecida, Ela deu um salto na psicoterapia. As palavras de seus pais também começaram a germinar.
Certa vez, ela fez uma oração e a registrou na capa do seu mais bonito caderno:
— Deus, muitos não têm doenças físicas, vivem anos e anos, mas suas vidas não têm sonhos nem aventura. Dê-me força para lutar pela vida e pelos meus sonhos. Ensina-me a viver cada dia como se fosse eterno.
Karen fortaleceu-se tanto que, mesmo com a queda de cabelo se acentuando, resolveu voltar à escola. Comunicou seu desejo a Suzan. Fazia um mês que não freqüentava as aulas. Antes de entrar na sala, lembrou-se dos tempos que brincava, mexia com os colegas e se divertia sem preocupações. De repente, ao entrar na sala, Karen levou um susto, ficou perplexa. Não conseguia acreditar na imagem que via.
       Ninguém imaginou. Realmente era quase inimaginável.
— Viu a solidariedade! Viu a maioria dos seus amigos e das suas amigas calvos, entre elas SuzaN. Em seguida, eles lhe disseram:
— Nós raspamos a cabeça para mostrar que estamos juntos com você nessa luta, para mostrar que nós amamos você do jeito que você está e que você é linda mesmo com sua queda de cabelo.  Foi um gesto de afetividade único. Karen caiu num doce e incontrolável pranto. Não conseguia dizer nenhuma palavra. Foi abraçada e beijada por todos os seus amigos. Estava atônita, flutuava diante da manifestação de carinho. Raramente o amor foi tão longe.
       — Os amigos de Karen aprenderam a se colocar no seu lugar, perceberam seus sentimentos ocultos e a apoiaram num momento tão difícil da sua vida. Aprender a colocar-se no lugar dos outros é uma das mais importantes características da inteligência, mas infelizmente a maioria dos jovens não a desenvolve. Essa característica é a melhor vacina contra as rejeições, discriminação e isolamento.
       Karen ainda teve vômitos, sentiu dores e se submeteu a outra cirurgia. Mas sua garra, coragem e fome de viver foram mais fortes. Dedicou-se com disciplina ao seu tratamento.          Além disso, ela sei soltou, começou a participar de festas, a conviver sem medo com as pessoas. Sua auto-estima melhorou, seu ânimo reacendeu. Por fim, Karen triunfou, venceu o câncer. Mas ela já era uma vencedora, pois já havia feito de cada dia um momento eterno.
       Karen foi disciplinada em outra coisa: na transformação do seu sonho em realidade. Ela, que não morria de amor pelos estudos, começou a se destacar, estudava não apenas para as provas, mas por causa do seu projeto de vida. Começou a ler livros, jornais, interpretar melhor os textos, debater idéias. Assim, passou a ter um ótimo desempenho na escola.
       Por fim, entrou na faculdade de medicina. Após o término da faculdade, a dra. Karen se especializou em oncologia pediátrica, médica que cuida de câncer na infância. Brincava, sorria, parecia uma palhaça diante das crianças. Raramente se viu uma médica que amava tanto a vida e que batalhasse tanto pela vida de cada criança.

Filhos Brilhantes, alunos Fascinantes - Augusto Cury.

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